COLEIRA
Segundo o dicionário Larousse Cultural (1999, p. 243) o significado para a palavra "coleira" é: "COLEIRA s.f. (Do lat. collarium) 1. Correia de couro ou de metal que se coloca no pescoço de certos animais para prendê-los, fazê-los trabalhar, reconhecê-los, etc. - 2. P. ext. Colar, argola, gargalheira. - 3. Sujeito velhaco, mau pagador”.
"Reconhecê-los"... torna-se um elo principal, a coleira é uma aliança entre o Dominador e seu escravo, é a prova que sua submissão é reconhecida por ele, então a coleira vem como prêmio.
Associada as outras referencias "colar" e "argola" são apresentados como equivalentes de coleira.
Em Lingüística é de suma importância o que é e quais são os objetivos da semântica.
Quando falamos em "simbolismo", este sempre vai evocar o "significado"; e o significado vai evocar a semântica. Para utilizar uma definição simples, a semântica é uma disciplina da Lingüística que estuda o significado em linguagem. Em semântica, segundo Maria Helena Marques, (1999, p.61) é possível entender por um lado, "que uma palavra tem tantos sentidos quantos sejam as suas diversas realizações contextuais. De outro lado, pode-se interpretar que a indeterminação inerente ao significado decorre de uma palavra ter um sentido básico, a que se somam fatores contextuais lógicos, emotivos, combinatórios, evocativos e associativos, que introduzem nuances interpretativas diversas, no mesmo significado básico”.
Notamos nos dicionários apenas o sentido denotativo do termo, então qual o sentido conotativo, que obviamente deveriam existir e que, provavelmente, viriam ao encontro de tudo que realmente sinto quando temos uma coleira em nosso pescoço.
Segundo os Dicionários de Símbolos verificando seus correlatos encontramos em "colar" uma referência à coleira, consta no Chevalier & Cheerbrant (1999, p. 263),:
"Afora seu papel de ornamento, o colar pode significar uma função, uma dignidade, uma recompensa militar ou civil, um laço de servidão: escravo, prisioneiro, animal doméstico (coleira). Num sentido cósmico e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo ao uno, uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem uma diversidade qualquer, mais ou menos caótica. (...)".
Vamos nos deter a: "um laço de servidão: escravo, prisioneiro, animal doméstico(...)". Ter com alguém um laço de servidão implica sempre numa entrega sem reservas. Essa entrega, por vezes, cria uma situação contraditória.
"De modo geral, o colar simboliza o elo entre aquele ou aquela que o traz e aquele ou aquela que o ofertou ou impôs. Nessa qualidade, liga, obriga, e se reveste, por vezes, de uma significação erótica". Sobre a significação erótica, encontrei também em Cirlot (1984): "Por sua colocação no pescoço ou sobre o peito adquire relação com estas partes do corpo e os signos zodiacais que lhes concernem. Como o pescoço tem relação astrológica com o sexo, o colar simboliza também um vínculo erótico".
A idéia de que a coleira crie um vínculo erótico, não causará surpresa a nenhum(a) submisso(a). Qual de nós, submissos, ainda não sentiu no ritual de colocação da coleira, aquele desejo. Aquele desejo que se espreme garganta abaixo e acaba por se derreter em sensações. Ah!!!!! Sem dúvida há o vínculo erótico, inquestionável.
"Num sentido cósmico e psíquico, o colar simboliza a redução do múltiplo ao uno, uma tendência a pôr em seu devido lugar e em ordem uma diversidade qualquer, mais ou menos caótica. (...)". E em Cirlot: "No sentido mais geral, o colar composto de múltiplas contas enfileiradas expressa a unificação do diverso, quer dizer, um estágio intermediário entre o desmembramento aludido por toda multiplicidade - sempre negativa - e a verdadeira unidade do contínuo".
Aqui falamos de mais uma maneira de entender o uso da coleira, ainda segundo Danna - num texto inédito: "(...) É deixar que todo esse envolvimento mude minha maneira de ser, e verificar que isso afetou para muito melhor meu relacionamento com outras pessoas (...)".
Também não causa nenhuma surpresa a um(a) submisso(a), perceber como o uso da coleira altera, por via de regra para melhor, nosso comportamento de maneira geral. É como se, realmente, as coisas fossem colocadas em seus devidos lugares. Dúvidas desaparecem, sentimentos menores são deixados de lado, picuinhas perdem sua importância. Nos tornamos mais belos, mais sensuais, mais receptivos. E como a linguagem corporal é poderosa, recebemos de volta, das outras pessoas, tudo de bom que passamos para elas, mesmo inconscientemente.
Chevalier & Cheerbrant sugerem que se veja o significado de "círculo" (1999 p. 254). O círculo apresenta uma quantidade enorme de significações, mas uma determinada parte do texto me chamou a atenção. Trata-se da passagem em que se toma o círculo (e suas representações - colar ou coleira aí incluídos) como um símbolo de proteção e de alma cativa. "
(...) Em sua qualidade de forma envolvente, qual circuito fechado, o círculo é um símbolo de proteção, de uma proteção assegurada dentro de seus limites. Daí a utilização mágica do círculo, como cordão de defesa ao redor das cidades, ao redor dos túmulos, a fim de impedir a penetração dos inimigos, das almas errantes e dos demônios. Há lutadores que costumam traçar um círculo em volta do seu corpo, antes de travar o combate. O círculo protetor toma a forma, para o indivíduo, da argola (ou aro), do bracelete, do colar, do cinto, da coroa. (...) Esse mesmo valor do símbolo explica o fato de os anéis e braceletes sejam retirados ou proibidos àqueles cuja alma deve estar livre para evadir-se, como os mortos, ou para elevar-se em direção à divindade, como os místicos. (...)"
A coleira me dá essa sensação de que minha alma não pertence mais somente a mim... minha alma tem um Dono... o mesmo que me colocou a coleira em torno do pescoço. É um pacto. Esse pacto, simbolizado pela coleira, me protege. É como um lembrete: lembra aos outros, que não pertenço a mim mesmo; lembra a mim, a quem devo reverenciar.
Referências Bibliográficas
CHEVALIER, J; CHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos. 14a ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1999.
CIRLOT, J. E. Dicionário de Símbolos. São Paulo: Moraes, 1984. GRANDE DICIONÁRIO LAROUSSE CULTURAL DA LÍNGUA PORTUGUESA. São Paulo: Nova cultural, 1999.
MARQUES, M. H. D. Iniciação à Semântica. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
Baseado nos textos originais em inglês:
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